Tipos Mato-grossenses a websérie que homenageia Domingas uma personagens de Mato Grosso

Seu quintal é maior do que o mundo

A escritora Cecília Meireles (1901-1964) dizia que “não há nada mais universal do que o regional”. Importante ressaltar que, naquela época, nem se falava em “globalização”. Algumas décadas depois, uma outra mulher, Dona Domingas Leonor da Silva, colocou em prática a poesia/profecia de Cecília. Mais especificamente no dia 27 de julho de 1993, quando criou o grupo de siriri e cururu “Flor Ribeirinha”, que, 24 anos depois, em agosto de 2017, foi o vencedor de um dos principais festivais de folclore do mundo, o Büyükçekmece Internacional Festival, realizado na Turquia, onde estiveram presentes grupos representantes de 97 países.

Entretanto, até que se tornasse um grupo reconhecido e reverenciado, o Flor passou por muitos “perrengues”, como diz Dona Domingas. Sua intenção, quando o criou, era preservar e transmitir aos mais jovens a cultura que lhe fora passada por seus ancestrais. Domingas, em suas raízes maternas, descende de índios Coxiponés, tanto é que nasceu, se criou e ainda vive na comunidade São Gonçalo Beira Rio, território onde outrora habitaram os indígenas que deixaram os laços genéticos e culturais responsáveis pela identidade da população local.

Agora, ao olhar para trás, Domingas pode tranquilamente dizer, sem que haja qualquer tipo de presunção ou arrogância no discurso, que cumpriu com êxito a missão a qual se propôs. Afinal, o que começou como uma tentativa de afirmação/reconhecimento da cultura regional, ganhou cada vez mais força e, com o passar do tempo, se consolidou não só como um dos símbolos da cultura tradicional mato-grossense, mas do Brasil. Basta dizer que, além de vários estados brasileiros, já se apresentou em diversos países, como França, Paraguai, Itália, Suíça, Coreia do Sul, Peru e, mais recentemente, na Turquia. Entretanto, para gozar do atual prestígio, o Flor carrega um passado de enfrentamentos, resistência e conquistas, pois, durante um período, as elites rejeitavam e menosprezavam qualquer tipo de expressão cultural/artística de origem popular.

Origem de Domingas e da Comunidade São Gonçalo Beira Rio

Não por acaso, uma das expressões com maior apelo popular do estado, o siriri e o cururu, tem seu berço na tradicional comunidade São Gonçalo Beiro Rio, fundada no século XVIII e situada à margem esquerda do Rio Cuiabá. Sua população possui uma identidade cultural muito característica, evidenciada em hábitos e costumes cotidianos, como a pesca, a religiosidade, o uso da canoa, as benzedeiras, o artesanato com cerâmica e, é claro, a festividade, representada principalmente pelas rodas de siriri e cururu.

A comunidade, atualmente, tem aproximadamente 300 moradores, divididos em cerca de 70 famílias. Uma destas é a de Dona Domingas, que possui três filhos e quatro netos de sangue, além de inúmeros adotados, pois é assim que ela considera as demais crianças que fazem parte do Flor Ribeirinha.

Se já não bastasse, a “mulher pantaneira”, como ela se denomina, é produtora cultural, dançarina, artesã e já presidiu a Associação de Moradores de São Gonçalo, a Associação de Mães da Comunidade e a Associação de Ceramistas. Hoje em dia preside somente o grupo de dança, cuja sede é o próprio quintal de casa.

Neste contexto, o verso do poema “O apanhador de desperdícios”, do saudoso tipo mato-grossense Manoel de Barros, parece feito sob medida para este espaço tão simbólico para Domingas e toda a comunidade: “Meu quintal é maior do que o mundo”

Uma história de amor, resistência e glórias

Nas décadas de 50/60, época da infância de Domingas, o contexto sociocultural de Cuiabá tinha como referência a cultura carioca, já que o país tinha o Rio de Janeiro como capital. Por isso havia, por parte da elite cuiabana, uma certa negação dos costumes e manifestações folclóricas locais.

Além disso, nas décadas de 70, 80 e 90, houve uma grande onda migratória para a capital mato-grossense, trazendo, anos após ano, milhares de pessoas dos mais diversos locais do Brasil e até do exterior, que, consequentemente, traziam consigo as próprias tradições e costumes. Este cenário, aliado ao menosprezo elitista remanescente das décadas anteriores, ameaçava dissolver práticas e fazeres culturais dos cuiabanos tradicionais.

Foi neste contexto que surgiu um movimento chamado “Muxirum Cuiabano”, que tinha como objetivo resistência/preservação/propagação de manifestações locais. Assim, grupos de pessoas de origem cuiabana, em sua maioria composta por moradores de bairros antigos e periféricos, passaram a ser valorizados como uma espécie de guardiões da cultural tradicional. Dentre eles, o grupo Flor Ribeirinha.

Siriri e Cururu

Em suas apresentações, o grupo se ocupa de duas manifestações folclóricas típicas da cultura popular de Mato Grosso, o siriri e cururu, tradições seculares de origem indígena, mais populares em zonas rurais e ribeirinhas.

O siriri é dançado e cantado por mulheres e homens. Os dançadores se manifestam, ora em roda, ora em fileiras, batendo palmas e cantando. Já no cururu, os cururueiros, homens responsáveis por executar o ritmo, tocam, em roda, a viola de cocho (típico instrumento mato-grossense) e o ganzá de bambu (chamado também de reco-reco e adufo), seguido de mocho ou tamborim. E, dois a dois, vão cantando versos para cativar ouvintes e dançadores.

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